Primeiramente devo confessar que sou gaúcho, natural de Porto Alegre. Depois devo dizer que, embora nutra um sentimento de orgulho por ter nascido neste estado, não sou bairrista – ao menos não sou diferente daqueles que sentem orgulho de terem nascido nos seus respectivos estados. Escrevi um “about” que retrata bem o meu modo de pensar:
… Nasci em Porto Alegre num mês de maio, o que me fez de uma só tacada um gaúcho e um taurino. Não tenho orgulho demasiado de nenhuma das duas definições, sou antes um brasileiro orgulhoso…
Escrevo um post sobre o tema por estar encontrando na web uma grande quantidade de textos refletindo um mal disfarçado preconceito com o Rio Grande do Sul. As acusações são muitas e variadas, algumas acusando o povo do estado de excessivamente bairristas, outras demonizando nossas tradições.
Muitos não devem saber que, realmente o chamado Movimento de Tradição Gaúcha e os Centros de Tradições Gaúchas afiliados a ele, são movimentos criados na década de 50 no século passado por um grupo de estudantes do colégio secundarista Júlio de Castilhos.
A origem de tal movimento contestatório ao MTG é o próprio estado, eis que foi um professor universitário e jornalista – Tau Golin – o autor de um “Manifesto Contra o Movimento de Tradição Gaúcha”. O manifesto não está de todo errado, nem certo. Como sempre, tudo tem dois lados e o lado errado do movimento é justamente esse: considerar todo o MTG como um grande mal.
Existe uma tendência política das esquerdas de ver em tudo uma “política conspiratória”. Ao focar o início do movimento num colégio secundarista no ano de 1947, o autor do protesto acaba concedendo importância demasiada ao movimento, colocando-o como “um grande plano de dominação das direitas”. O movimento certamente pode ter sido usado, mas certamente não foi criado com esse fim.
Por mais coisas erradas que possam acontecer nesse movimento, ainda assim sobram aspectos positivos, não fosse assim e eles não seriam o sucesso que são no estado, no país e até no mundo. Ao negar capacidade ao povo de escolher o que lhe é bom ou mau, alguém se arvora o direito de ser o disciplinador daquilo que o povo deve ou não deve. Como sempre, aparece alguém disposta a defender a democracia popular pela sua eliminação (extirpando, dessa forma, os males decorrentes do excesso de liberdade).
Como afirmei antes, não existe só o oito e o oitocentos, a sabedoria sempre está no bom senso. O manifesto ganharia mais validade se apontasse para soluções que visassem melhorar o movimento, ao invés de tentar demonizá-lo completamente. Como disse um sábio; “muitas vezes um chatoru é só um charuto invertido”.